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Draconismo: o Cristianismo em xeque?

Na recente produção do estúdio de cinema Dream Works, Como treinar o seu dragão 2 (2014), continua a saga draconiana, com Soluço, Astrid e seus jovens amigos (agora com cinco anos a mais do que no primeiro filme, de 2009) interagindo com seus dragões individuais, especialmente o dragão e personagem-título Banguela (Toothless, na versão em inglês, Banguela é chamado de Desdentado em Portugal).

Draconismo

O dragão é treinado pelo jovem Soluço e, após uma batalha épica, ambos tornam-se heróis. No segundo filme, após inverter a cultura da cidade viking de Berk, ficcionalmente localizada no litoral do Mar do Norte e inicialmente antipática aos dragões, mas agora, totalmente entrosada com os nobres e carismáticos seres alados, a trupe integra as forças de defesa da cidade como um esquadrão aéreo de elite. Uma animação computadorizada próxima da perfeição, o longa-metragem estende a aventura até o heroísmo, numa exemplar sinergia entre as personagens em sua luta contra a tirania do vilão Drago, encantador de um enorme dragão-alfa, o qual controla todos os demais dragões. Na trama marcada por esforço coletivo e sacrifícios individuais, com a vitória dos habitantes de Berk, Banguela termina ocupando o posto de dragão-alfa.

Em que pese ser uma aventura cinematográfica muito bem produzida, com um enredo bem elaborado que caiu no gosto do público infanto-juvenil (e dos mais velhos também), a animação está recheada de elementos inspirados nas tradições nórdicas. A razão deste artigo é comentar a presença desses elementos, que sugerem, à semelhança de outras produções recentes, um discurso afinado de antemão para a draconisação do Ocidente.

Primeiramente, não é desconhecido que o cinema se tornou, nas últimas décadas, uma das principais formas de entretenimento do público ocidental, majoritária e nominalmente cristão. Esta parte da humanidade tem, entre seus valores tradicionais, certa antipatia pela mitologia pré-cristã, dentre os quais a noção de que dragões, enquanto seres míticos, representam o mal e são associados com o diabo. No Oriente, a figura do dragão oscila entre o bem e o mal, mas muitos há que o consideram portador de poderes benéficos e compatíveis com as forças construtivas da personalidade assim como da moralidade dos povos.

Assim, a ficção criada por Cressida Cowell (Londres, 15.04.1966) inspirou a Dream Works (em inglês, “fábrica de sonhos”) a dar forma a uma animação premiada que buscou significações nas tradições nórdicas pré-cristãs, em que seres míticos realçavam qualidades valorizadas pelos pagãos. Traços remanescentes dessa época aparecem em brasões da heráldica e bandeiras e nas ilustrações de antigos painéis e afrescos descobertos pela Arqueologia.

Em segundo lugar, o modo como os dragões passam a ser aceitos e admirados entre os habitantes da cidade idealizada na obra pode induzir à mudança de opinião acerca de seres que, embora míticos, representam para nós cristãos o avesso daquilo que é retratado no cinema. Haveria, subjacentemente, uma simpática sugestão à assimilação dessa simbologia pagã?

Sabemos que na Europa fervilham movimentos revisionistas da gênese e evolução cultural que legou à História um continente cristianizado ao longo dos séculos, berço das principais correntes filosóficas e expressões de fé que tanto influíram na formação de outros povos. Admitindo que a cultura não é isenta de transformação, não se pode ingenuamente acreditar que investimentos milionários da cultura sejam apenas inocentes entretenimentos sem desdobramentos. Temos, a priori, o conhecimento de que as artes em geral – com o cinema e a TV ultimamente – formam consciências e instilam mudanças paradigmáticas nos hábitos e valores do público.

Em terceiro lugar, é sabido que algumas formas de ocultismo, baseados em religião e filosofia pagãs, têm ressurgido sob novas formas, muitas dentro do revisionismo já citado. Por exemplo, noções de luciferação, draconismo ou gnosticismo ofita estão salpicadas em produções como a série de filmes de Harry Potter, baseada em livros de J.K Rowling, Anjos e demônios, do ficcionista Dan Brown, a série televisiva Crepúsculo, adaptação da obra de Stephenie Meyer por Melissa Rosenberg, entre outros. Do ponto de vista dos adeptos de certo movimento de cunho ocultista denominado draconismo (alusivo a dragão), ser um draconista não é, meramente, seguir a liderança do dragão (ou Lúcifer), considerado como um ser nobre e inteligente, cuja verdadeira natureza teria sido desmoralizada pelos cristãos ocidentais na evangelização dos povos que viviam sob a cultura pagã na Europa. Para os admiradores de Lúcifer (latim, lucem + ferre, “portador de luz”), que lhe ressaltam a nobreza, a sabedoria e boas intenções, o draconismo deriva diretamente desse personagem. Ele é mencionado na Bíblia, supostamente, como “Estrela da Manhã” ou “Estrela d’Alva” (Is 14.12-14), “antiga serpente”, “diabo”, “Satanás” (Ap 12.9; 20.2), enquanto Jesus Cristo é o “sol da justiça” (Ml 4.2), “luz do mundo” (Jo 8.12), “Senhor da glória” (1 Co 2.8).

Mas, unindo o conteúdo ocultista à tecnologia de cinema e TV, autores e produtores que enxergam na magia e símbolos pagãos alternativas carismáticas e rentáveis não hesitam em dispor disso como substituto ao sentimento cristão. Os resultados são avantajada bilheteria e altos índices de fidelidade dos telespectadores em escala planetária, com rios de dinheiro a remunerar tais empreendimentos. Mas não existem – ou são poucas – as pesquisas sobre o aumento da adesão a movimentos ocultistas, embora aqui e ali se conheçam algumas manifestações que se afirmam no gosto principalmente dos jovens, como o demonstram diferentes eventos, dentre os quais os festivais anime, convenções ou passeatas de seguidores de séries cult da TV, muitas vezes a caráter, em alusão ao estilo pop, e shows de horror punk, entre outros.

As instituições cristãs – sobretudo igrejas e famílias – devem estar atentas à dinâmica de esvaziamento que ocorre no Ocidente, para não serem surpreendidas por uma “virada” dos corações e mentes. As gerações mais novas estão sob o bombardeio contínuo de valores recuperados da cultura pagã e do ocultismo. Não se trata de pinçar essa ou aquela produção e tentar desenvolver “vacinas” antidragão, antivampiro, antiwicca, mas de prestar atenção à enxurrada cultural pop e propor valores e meios que resgatem o sentimento, princípios, símbolos e organizações afinados com o Cristianismo bíblico e transcendente.

 Por Luciano Vergara

 Pastor na Igreja Metodista. Graduado pelo Instituto Haggai (Cingapura, 2004).

Jornalista formado pela UFRJ, professor do Seminário Teológico Betel (RJ