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Igrejas usam artistas como outdoors de pescaria, sem antes discipliná-los

Nos idos dos anos 80, eles eram conhecidos como os “Bíblias” ou, de uma maneira mais xiita, de “Fanáticos”. Os crentes nunca tiveram boa fama no Brasil. Sempre foram vistos como bitolados, alienados, quando não havia pudor de usar expressões e rimas mais fortes para tirar um sarro de quem se dizia evangélico.

Igrejas usam artistas como outdoors de pescaria, sem antes discipliná-los

Junto com a “década perdida” estavam todos preceitos que mudaram através do tempo: crente não bebia, não ouvia música do mundo, não ia ao cinema, não jogava bola aos domingos e “não se sentava na roda dos escarnecedores”. Com proibições de cunho social, era difícil convencer alguém que ser de Jesus era uma escolha óbvia para um mundo perdido. Todas estas castrações surgiam como impedimento para aqueles que não estavam felizes, mas se sentiriam menos ainda, quando descobriam que transar antes do casamento era pecado e que a cervejinha do fim de tarde deveria ser trocado por algum culto de doutrina ou alguma reunião de oração.

Passados 30 anos e cada vez mais sumidos os tipos mais ortodoxos daqueles que se dizem cristãos, a confissão pelo novo e vivo caminho se tornou uma tendência, não nas camadas menos favorecidas, mas entre sub-celebridades. Em território tupiniquim, figuras que ganharam a fama de um jeito pouco convencional, passados os 15 minutos de fama, tentam perpetuar o bônus do sucesso através de uma conversão que não possui qualquer tipo de relação com a discrição ou mesmo com uma vida em que a missão maior é contar o que Jesus fez em sua vida.

Lá nos mesmos dos anos 80, quando bandidos que assolavam a Cidade Maravilhosa se converteram nas penitenciárias federais, muita gente desdenhava do processo de transformação destes homens. “Estão apenas conseguindo uma forma de terem suas penas amenizadas diante da sociedade”. Era assim que o senso comum julgava e condenava as experiências dessa turma, além do trabalho genuíno dos grupos de evangelismo nas profundas e mais abissais carceragens brasileiras.

Diferente do que ocorreu nos anos 90, década seguinte, quando as igrejas neopentecostais (e foram muito criticadas por isso) utilizavam o testemunho destes e de outros como outdoors de pescaria; nestes tempos percebe-se que há um clamor genuíno que sai dos bueiros brilhosos da fama; pessoas que gritam por socorro e que muitas vezes assistimos um reality macabro que conta com todos os ingredientes que conhecemos: muitas drogas, muito sexo e toda a morte possível. Vide Amy Winehouse e Whitney Houston, só para contar pouquíssimos exemplos.

Incomoda o silêncio da sociedade cristã no debate sobre o movimento das marés de conversão, ao mesmo tempo em que parece não se chatear com qualquer tipo de testemunho, mesmo que ele seja apenas um jeito de fazer com o que os cultos estejam cheios, o que faz a gente pensar quais seriam as motivações por trás de um movimento gospel que aceita, sem qualquer tipo de crítica ou censura,  gente que dá testemunho sobre o que “Jesus fez” e ao mesmo tempo posa nua em revistas masculinas para milhares de leitores. Sempre usando o argumento tolo de que “julgar é pecado”.

É como se a propaganda (legítima ou não), contribuísse para o aumento das estatísticas dos crentes no Brasil e isso fosse de fato o índice mais importante na luta das pessoas de bem realmente convertidas ao Cristianismo, quando sabemos que a relevância do evangelho se dá quando a sociedade sente-se impactada pela mensagem das Boas Novas. Qual é o tipo de assombro que uma confissão por Cristo causa se o velho homem ainda mantém seus hábitos?

A instituição não repensa seus atuais valores e sua membresia – cada dia mais passiva – utiliza-se de um comportamento etnocêntrico para avaliar o que tange seu próprio universo: “Se converteu? Glória Deus, hoje há festa no céu” e o que acontece durante e depois, não se sente no dever de se pronunciar ou não. Se a indolência fosse mantida para assuntos deste cunho, tudo bem. O problema é que o silêncio eclesiástico é tão profundo que não consegue abalar as estruturas com o bolor da sua própria história, que dirá invadir as portas do inferno.

Daniel da Costa Junior

Igrejas usam artistas como outdoors de pescaria, sem antes discipliná-los – visão geral

Resumo: Incomoda o silêncio da sociedade cristã no debate sobre o movimento das marés de conversão, ao mesmo tempo em que parece não se chatear com qualquer tipo de testemunho, mesmo que ele seja apenas um jeito de fazer com o que os cultos estejam cheios, o que faz a gente pensar quais seriam as motivações por trás de um movimento gospel que aceita, sem qualquer tipo de crítica ou censura, gente que dá testemunho sobre o que “Jesus fez” e ao mesmo tempo posa nua em revistas masculinas para milhares de leitores. Sempre usando o argumento tolo de que “julgar é pecado”.