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Música gospel brasileira atravessou a fronteira …

Estas últimas 3 semanas em especial, mas os últimos 2 meses como um todo, foram muito intensos e desgastantes para mim. Para ficar apenas entre o fim de abril e o início do mês de maio estive por uma semana em convenção na Cidade do Panamá às margens do Pacífico, depois passei por 2 dias numa maratona de divulgação em Porto Alegre e neste momento estou iniciando a produção deste texto a bordo de um jato Embraer com destino à capital norte americana da música, Nashville. Antes disso, passei 4 dias em Miami participando da Expolit, mais importante e tradicional evento do mercado cristão hispano que reúne mídias, gravadoras, livreiros, editoras, lideranças eclesiásticas, artistas e todo mundo que de alguma forma se envolve no desenvolvimento deste segmento.

brasileira atravessou a fronteira

E durante estes mais recentes dias pude ter contato com muitos profissionais e artistas do mercado hispano. Confesso que me surpreendi positivamente com a feira em si, pois nas últimas edições em que estive presente a sensação de desânimo entre os players do mercado era latente e tudo ali apontava para um futuro nada promissor. Então, dentro de um projeto que estou desenvolvendo para a região, estar na Expolit era algo bastante importante e estratégico, mas ao mesmo tempo, sem muitas expectativas. Eis que me deparo com uma feira bem animada, com um bom número de expositores, artistas e principalmente com um clima de que o pior já passou e que hoje estamos diante de um cenário bastante alvissareiro pela frente.

Nos 3 dias em que estive presente na feira em Miami conversei com profissionais de eventos, mídias, artistas e gente ligado à área musical e editorial. O clima de derrotismo de anos atrás parece ter ficado no retrovisor e todos apostavam de que um novo momento, especialmente para a música, está prestes a acontecer. Confesso que do ponto de vista artístico, não me enche os olhos (e principalmente os ouvidos!) a qualidade do que o mundo latino gospel vem apresentando nos últimos anos. Me parece, e aí não há qualquer sentimento de arrogância ou mesmo de xenofobia, de que a música gospel no Brasil está alguns anos à frente do que vem sendo produzido por nuestros hermanos. E aí, com muito cuidado, a cada conversa que tive com pessoas ligadas a esta área, fiz questão de trazer esta opinião pessoal até para poder provocar algum tipo de reação mais contundente. E em todos os casos a resposta foi de que realmente a música latina neste momento está carecendo de novos ares.

Especialmente numa conversa com um grande profissional da área de música e eventos ele me relatou sobre a dificuldade em fazer grandes concertos porque efetivamente há uma carência muito grande de novos artistas. O meio gospel latino ainda se restringe a poucos nomes de peso. A cada conversa sempre fiz questão de perguntar sobre quem seriam os grandes artistas do segmento e as respostas se repetiam numa monotonia de assustar – Marcos Witt, Danilo Montero, Jesus Adrian Romero, Alex Campos, Marco Barrientos e ficava por aí mesmo com mais um ou dois outros nomes pinçados com muito esforço. Ao longo destes dias procurei assistir a muitos concertos, principalmente de artista novos e confesso que não me entusiasmei muito com o que vi nestes dias, exceção para um grupo formado por irmãos argentinos que hoje residem em Miami e atendem pelo nome de Montreal. O som deles tem pop, adoração, música urbana e um pouco de ritmos latinos. Ainda precisam se desenvolver bastante em termos artísticos, mas me parecem talentosos e contam com uma boa equipe de apoio, o que já é uma diferença e tanto. Outra artista que me impressionou bastante foi Cristina D’Clario, uma jovem portoriquenha que hoje reside no Texas e que de todos que pude ver foi aquela que me causou uma excelente expectativa.

E em meio a tantos e tantos latinos, eis que me deparo pelos corredores da feira com André Valadão que estava por ali lançando oficialmente o projeto Fortaleza em Espanhol. No penúltimo dia de feira, AV acompanhado de uma competente banda local se apresentou para um bom público e ministrou com muita qualidade em cerca de 30 a 40 minutos de showcase. Por mais que os chatos e sem noção dos seguranças com seus fones de ouvido, paramentos e traquitanas mil, sentindo-se os próprios Clint Eastwood, querendo a todo custo impedir o público de pular, dançar e ficar mais perto do palco, a interação entre Valadão e o público foi total. Ali ficou ainda mais evidenciado para este humildes observador a diferença de nível entre o que alguns artistas brasileiros hoje se encontram e os demais artistas gospel latinos. Mesmo sem ainda ter controle total da língua, André Valadão cantou, ministrou, chamou o público para participar e fez todo mundo cantar junto algumas de suas canções.

Já na quinta-feira à noite, primeiro dia do evento, também tive a oportunidade de assistir à apresentação do cantor-pressão Thalles Roberto que da mesma forma que se destacou no Brasil de forma meteórica, me parece buscar o mesmo para o mercado latino. Em algumas revistas que tive acesso no evento me deparei com diversas entrevistas publicadas, fotos em materiais promocionais da feira e mesmo música tocando na principal FM de Miami (La Nueva), ou seja, o mineiro chegou com tudo ao mercado latino. No show, a mesma performance que o público brasileiro está acostumado a ver, muito gingado, muita intensidade, muita pressão, sonoridade diferenciada, carisma e como não poderia deixar de ser alguns decibéis além da conta pra manter a tradição. Assistindo a reação do público que mais uma vez veio até a frente do palco pra interagir de mais perto com o artista (sendo novamente rechaçados pelos Charlie Bronson fakes, seguranças chatos que só!!!) me parece que a receptividade por esta nova proposta sonora está em alta.

Também merece registro que tanto Thalles como André Valadão convidaram artistas latinos para participarem de seus discos de estréia no mercado hispano. Golaço! E me parece que estamos diante de um momento bem interessante para uma maior integração entre os artistas e a música brasileira com o continente latino que por muitos e muitos anos se mostrou como algo muito distante e por vezes desimportante para nós. Outro fato que merece registro é que Aline Barros continua absurdamente conhecida em todo o meio hispano. A cantora que foi a pioneira em iniciar uma carreira paralela para o mercado hispano (infelizmente tivemos um monte de artistas gravando em portunhol achando que só isso seria necessário para conquistar as Américas! Triste engano!), ainda hoje tem seu nome reconhecido na região. Já no primeiro dia em Miami pude ouvir na La Nueva FM uma música de Aline Barros sendo executada normalmente na programação.

Um dos meus trabalhos por estes dias foi apresentar para o maior número de pessoas, justamente o mais novo trabalho de Aline Barros e o primeiro disco em espanhol da turma do Trazendo a Arca. A receptividade ao projeto de Aline Barros foi tremenda e já nos próximos dias certamente teremos suas músicas sendo executadas nas FMs latinas. Já a respeito do disco do Trazendo a Arca, especialmente 3 profissionais de rádio puderam ouvir pessoalmente ao meu lado e todos, sem exceção destacaram a qualidade da produção, da pronúncia e principalmente das músicas. Me parece que a sonoridade mais congregacional deste disco tem tudo pra cair no gosto da região.

Particularmente sempre fui muito ressabiado (só pra manter um adjetivo bem polido, porque o certo seria usar algo um pouco mais intenso) quando ouvia determinados artistas declarando em alto e bom som de que Deus tem uma promessa de uma carreira internacional. “Ele me deu uma palavra de que eu iria levar sua Palavra aos 4 cantos da terra! Oh Glórias!” Só que depois destes dias e analisando alguns outros fatores importantes como a própria questão da distribuição que hoje é um problema menor em função do crescimento das plataformas digitais, já começo a ver com bons olhos uma maior expansão de artistas brasileiros cristãos rumo às Américas. Agora, é fundamental que este tipo de projeto seja levado com a devida responsabilidade e seriedade com que deve ser tratado.

✔ É fundamental ter o controle da língua hispana! Se você pretende desenvolver uma carreira no exterior, especialmente no mercado latino comece hoje mesmo a estudar! É engraçado como todo brasileiro acha que sabe falar naturalmente a língua espanhola como se fosse um celular com 2 chips já embutidos no DNA. Não! Não é simplesmente enrolar a língua e começar a falar português com milongas portenhas no melhor estilo “La Garantia Soy Yo”. Se você não pretende se dedicar em horas e horas de estudo, então é melhor ficar por aqui mesmo!

✔ Também é fundamental tempo dedicado ao projeto! Não dá para gravar um disco em espanhol, participar de uma Expolit e depois sumir do mapa dedicando sua agenda integralmente ao país. Conheço muitos artistas que seguiram esta “estratégia”e como era de se esperar não foram a lugar algum, ou melhor, foram sim, aproveitaram a passagem por Miami pra fazer umas comprinhas porque ningém é de ferro! Pelo menos a cada 4 meses ou até menos é fundamental que o artista esteja presente na região e aí é bom frisar também que mercado latino não é Ciudad de Leste no Paraguai ou Buenos Aires, Bariloche ou Santiago. São muitos países, muitas viagens, muitos eventos sem estrutura, muitos aeroportos diminutos, muitos eventos em que você será obrigado a dormir na casa do pastor e por aí vai … ou seja, é ralação, dedicação e foco!

✔ Ainda falando de agenda … não se engane! O valor dos cachês do mercado hispano (principalmente pra quem está começando na região) está longe de manter o mesmo nível do Brasil. Então se você pensa em desenvolver um ministério na América Latina pra passar a ganhar em dólar e aumentar seus ganhos, pode mudar de expectativas! Na região latina a agenda dos artistas gospel é 90% formada de apresentações em igrejas, congressos e uns poucos shows ingressados. Também vale ressaltar que não há praticamente em país algum da região, o mercado de shows para prefeituras.

✔ Não tenha dúvida, o caminho deve ser o mesmo do início da carreira no Brasil. Ou seja, muito tempo dedicado a entrevistas, promoção, viagens, assessoria de imprensa e transpiração. Não se ilude achando que sendo o tal no Brasil as portas se abrirão no mercado latino. Isso simplesmente não irá acontecer, nem mesmo para os artistas seculares. Então se você já está cansado, não tem disposição pra enfrentar toda a maratona do início de sua jornada no meio gospel de anos atrás, então é melhor manter-se na zona de conforto e deixar para curtir a região latina em períodos de vacaciones.

E seguindo nesta linha, uma das grandes diferenças do meio gospel brasileiro para o seu similar latino é de que as mídias são absurdamente receptivas aos artistas. Por lei nos EUA toda rádio é proibida de fazer qualquer contrato comercial para executar qualquer tipo de conteúdo musical. Quanta diferença não é mesmo?

E como já falei algumas linhas acima, o momento é mais favorável aos artistas brasileiros agora também pelo fato de que a internet e as novas tecnologias possibilitam um alcance maior, com menores custos de investimento e maior agilidade. Uma dica aos artistas que hoje estão neste novo desafio é para que invistam ao máximo em vídeos e conteúdo visual.

Já vou saindo de cena porque o piloto já avisou que estamos chegando em Nashville. Abraço a todos os 66 leitores e preparem-se porque a safra de novos textos está bem intensa!